Sexta-feira, Novembro 28, 2008

"O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos e É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter. "
Fernando Pessoa
Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888 em Lisboa. Em 1896, a família parte para Durban onde Fernando Pessoa estuda e aprende o inglês. Em 1905, ele regressa definitivamente a Lisboa, com intenção de se inscrever no Curso Superior de Letras. Lê Shakespeare, Wordsworth e filósofos gregos e alemães. Toma contato com a poesia francesa, especialmente a de Baudelaire e lê os poetas portugueses Cesário Verde e Camilo Pessanha. Em 1907, abandona o curso superior e monta uma tipografia que mal chega a funcionar. Pessoa escolhe uma vida discreta, mas livre, sem obrigações fixas, nem horários. Publica Paúis, sob o título de Impressões do Crepúsculo e aparecem os heterônimos*: Alberto Caeiro e seus discípulos Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Fernando Pessoa compõe Ode Triunfal, encaminhando-se para o Sensacionismo e para o Futurismo. Inicia-se no esoterismo, traduzindo um Tratado de Teosofia. Em 1919, escreve Poemas Inconjuntos, assinados por Alberto Caeiro, apesar deste ter morrido em 1915. Publica Mensagem, livro de poemas de cunho místico-nacionalista, única obra em português publicada em vida.
*Os heterônimos (diz-se de autor que publica um livro sob o nome verdadeiro de outra pessoa) Os principais heterônimos de Fernando Pessoa são: 1- Alberto Caeiro, nascido em Lisboa em 16 de abril de 1889 - o mais objetivo dos heterônimos. Busca o objetivismo absoluto, eliminando todos os vestígios da subjetividade. É o poeta que se volta para a fruição direta da Natureza; busca "as sensações das coisas tais como são". Opõe-se radicalmente ao intelectualismo, à abstração, à especulação metafísica e ao misticismo. Neste sentido, é o antípoda de Fernando Pessoa "ele-mesmo", é a negação do mistério, do oculto. Coerente com a posição materialista, antiintelectualista, adota uma linguagem simples, direta, com a naturalidade de um discurso oral. Os versos simples e diretos, próximos do livre andamento da prosa, privilegiam o nominalismo, a "sensação das coisas tais como são". É o menos "culto" dos heterônimos, o que menos conhece a Gramática e a Literatura. Mas, sob a aparência exterior de uma justaposição arbitrária e negligente de versos livres, há uma organização rítmica cuidada e coerente. 2- Ricardo Reis, nascido no Porto em 19 de setembro de 1887 - representa a vertente clássica ou neoclássica da criação de Fernando Pessoa. Sua linguagem é contida, disciplinada. Seus versos são, geralmente, curtos, tendendo à vernaculidade e ao formalismo. Tem consciência da fugacidade do tempo; apóia-se na mitologia greco-romana; apresenta-nos uma musa (Lídia) e, filosoficamente, é adepto do estoicismo e do epicurismo (saúde do corpo e da mente, equilíbrio, harmonia) para que se possa aproveitar a vida, mas sem exageros, sossegadamente, porque a morte está à espreita. Médico que se mudou para o Brasil. 3- Álvaro de Campos, nascido no Porto em 19 de setembro de 1887 - é o lado "moderno" de Fernando Pessoa, caracterizado por uma vontade de conquista, por um amor à civilização e ao progresso, por uma linguagem de tom irreverente. Essa modernidade tem ligações claras com o cosmopolita Cesário Verde, com Walt Whitman e com o Futurismo. Sentindo e intelectualizando suas sensações (sentir e pensar), Campos percebe a impossibilidade de não pensar, observa criticamente o mundo e a si próprio, angustiando-se diante do tempo inexorável e do absurdo da vida. Apresenta-se como o engenheiro inativo, inadaptado, inconciliado, com consciência crítica.

Quarta-feira, Novembro 12, 2008

Acende uma lua no céu
E muitas estrelas no olhar
E deixa-te linda e sem véu
Envolta num brando dossel de luar.

Semeia de flores teu chão
E abre a janela aos perfumes do ar
E esquece tua porta entreaberta
Porque na hora certa

Verás teu poeta surgir
E entrar e abraçar-te chorando
E amar-te até quando
Tiver que partir.

Vinícius de Moraes

Consagrado no movimento da bossa nova, Marcus Vinícius Cruz de Melo Moraes compôs, junto com Tom Jobim, a música Garota de Ipanema, símbolo de uma época e, com seu jeito pausado e intimista de cantar, foi um marco da bossa nova. Além de compositor e intérprete, destacou-se na poesia, sendo considerado o último e um dos mais brilhantes poetas do modernismo. Nascido no bairro do Jardim Botânico no Rio de Janeiro, cidade que jamais cansou de cantar e louvar. Escrevendo sonetos tensos e versos pomposos, sua poesia inicial está tomada pela metafísica, com poemas de acentos bíblicos. Em 1938, recebendo a primeira bolsa do Conselho Britânico para a Universidade de Oxford, partiu para a Inglaterra. No Magdalen College, estudou Língua e Literatura inglesas. Retornou ao Brasil quando estourou a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), iniciando a atividade de crítico de cinema em A Manhã. Em 1943, publicou uma de suas mais belas obras, Cinco Elegias. Em 1953, compôs seu primeiro samba, Quando Tu Passas por Mim. Com Tom Jobim, iniciou-se a bossa nova.

Segunda-feira, Novembro 10, 2008

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor

Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa

Sexta-feira, Novembro 07, 2008

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos,
colhidos no mais íntimo de mim…
Suas palavras seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir…
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas…
e que estão escritas do lado de fora do papel…
Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro,
ao vento da Poesia…
como uma pobre lanterna que incendiou!

Mário Quintana

Palavras que estão escritas do lado de fora do papel.
E do lado de dentro? O sentimento...

"Força é o talento dos poetas, dos músicos, dos loucos, dos cantores. Força é o homem poder superar a si mesmo, em cada desafio. Força é achar no dia-a-dia oportunidades para lutar por um mundo mais humano, mais justo e mais colorido. Força é a capacidade de passar por cima dos preconceitos e descobrir no próprio homem a razão do viver.”
(Mário Quintana)
"Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há ! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai ! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas : ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade.

Nasci do rigor do inverno, temperatura : 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton ! Excusez du peu..

Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso ! sou é caladão, instrospectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros ?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de fármacia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Veríssimo – que bem sabem ( ou souberam) , o que é a luta amorosa com as palavras."

por
Mario Quintana.

Mário Quintana, tem a minha total admiração e a mim, sua assídua leitora. Ele é formidável, extraordinário, excepecional poeta da vida!


Quinta-feira, Novembro 06, 2008

Não sei… se a vida é curta ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
Mas que seja intensa, verdadeira, pura…
Enquanto durar!

Cora Coralina

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a Cora Coralina, poetisa brasileira nascida em Goiás, GO, que apesar de distante das grandes cidades como dos credos e receitas de literatura vigentes no Brasil, construiu uma obra poética com motivos autênticos do cotidiano interiorano. Cursou apenas as primeiras letras com mestra Silvina e já aos 14 anos escreveu seu primeiro conto, Tragédia na Roça. Casou-se e teve seis filhos. Ao ficar viúva e passou a cuidar de sua obra definitiva. Publicou seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás, quando já contava com 77 anos. Recebeu o prêmio Juca Pato, da União Brasileira de Escritores, e morreu em Goiânia, dois anos depois. Logo após sua morte, seus amigos e parentes uniram-se para criar a Casa de Coralina, que mantém um museu com objetos da escritora.

Linda Cora Coralina, tem minha admiração!

Quarta-feira, Novembro 05, 2008

Ouvir estrelas

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquantoL
A Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi:”Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.


Olavo Bilac, Via Láctea, 1888

Olavo Bilac, poeta brasileiro, nasceu no dia 16 de dezembro de 1865, no Rio de Janeiro e faleceu no dia 28 de dezembro de 1918 no mesmo estado. Cursou a Faculdade de Medicina e Direito, abandonando essa carreira para dedicar-se exclusivamente para a literatura. Tomou parte na Academia brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. Pertenceu à Escola Parsiana Brasileira, sendo um dos seus principais poetas. Seu cuidado em atingir uma obra perfeita, levou-o a escrever poesias técnicamente admiráveis, atingindo um dos mais altos graus do noso parnasianismo e os feitos históricos de seus desbravadores, são de grande beleza pelo ritmo e pelas imagens sonoras. Seus versos comoventes e de extraodinários sentimentos, o tornaram um dos nossos poetas mais preferidos. Sua consagração definitiva foi obtida com o seu livro:"Poesias" publicado em 1888. Escreveu muito, nunca se descuidando da forma. Algumas de suas obras: "Via Láctea", "Sarça de Fogo", "Crônicas e Novelas". O livro "Tarde", foi publicado postumamente em 1919. Consagrou os últimos anos de sua vida à propagenda do Serviço Militar Obrigatório. Seu nome completo: Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac.

Amo esta poesia! Amar para entender as estrelas? Belo!

Terça-feira, Novembro 04, 2008

Eu espalhei meus sonhos sob teus pés

Tivesse eu os tecidos bordados do céu,

Entremeados com a dourada e prateada luz,

O azul, o furta-cor e o escuro tecido


Da noite, do dia e da meia-luz,


Eu espalharia os tecidos sob teus pés.

Mas, sendo eu pobre, e tendo somente meus sonhos;


Espalhei meus sonhos sob teus pés;


Caminhe com cuidado pois caminhas

Sobre meus sonhos.

W.B. Yeats

William Butler Yeats nasceu em 13 de junho de 1865, em Dublin, Irlanda, onde se desenvolveu em um meio culto e criativo. Poeta e autor teatral, Prêmio Nobel (1923) de Literatura. Foi o representante máximo do Renascimento irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX."

Domingo, Novembro 02, 2008

O amor é como um punhal,
Com dois gumes fatais.
Quem não ama sofre,
Quem ama sofre mais.

Menotti del Picchia

Paulo Menotti del Picchia nasceu em São Paulo, em 1892. Fez seus estudos secundários em Pouso Alegre, Minhas Gerais, onde aos 13 anos de idade, editou o jornalzinho "Mandu", nele inserindo suas primeiras produções literárias. Viveu em Itapira, cidade do interior paulista, e aí editou "Juca Mulato", sua obra de maior repercussão, que já teve dezenas de edições. É autor de romances, contos e crônicas, de novelas e ensaios, de peças de teatro, de estudos políticos e de obras da literatura infantil.

Qual opção você escolhe?
Eu escolho amar e sofrer mais, aliás, como viver sem o amor, como viver sem amar, como não amar. Como diz Mário Quintana: "Como é bom morrer de amor e continuar vivendo."

Viver de amor, viver para amar, viver amando, e sou feliz!
Hoje estou com as lágrimas à tona
E do meu coração não dou dona.

De Amores